
Uma das principais redes baianas de supermercados, o Corujão ganhou notoriedade no varejo de proximidade ao apostar em um modelo até então incomum no interior da Bahia: lojas funcionando 24 horas por dia. Criada em Feira de Santana, a empresa se transformou em referência regional no setor supermercadista, chegando a sete unidades e faturamento anual de R$ 285 milhões durante o auge da operação. Em 2024, porém, encerrou as operações após enfrentar uma crise financeira.
O negócio começou de forma simples, em 2012, como uma distribuidora de bebidas 24 horas criada pela empresária Daniela Lacerda ao lado do marido. A proposta nasceu da percepção de uma lacuna no mercado local. Em Feira de Santana, depois de determinado horário, apenas pequenas conveniências permaneciam abertas.“Sempre gostei de estudar diferenciais competitivos. Feira de Santana não tem opções de lazer como cidades litorâneas, e o consumo de bebidas era muito forte. Depois de determinado horário, só existiam conveniências abertas. O Corujão começou funcionando praticamente como uma distribuidora de gás e bebidas 24 horas. Nosso principal diferencial era justamente esse: éramos o único funcionando 24h, todos os dias”, afirmou Daniela ao relembrar o início da empresa.
A estratégia transformou rapidamente o Corujão em um fenômeno regional. O que começou como um depósito de bebidas evoluiu para supermercado em 2018, ampliando a atuação para o segmento de atacarejo e varejo de proximidade. A rede também passou a apostar em unidades no formato Express e expandiu operações para Salvador por meio do modelo de franquias.
Por trás da ascensão da marca estava a trajetória da própria Daniela. Filha de uma família humilde, ela começou a empreender ainda criança, vendendo brinquedos e doces na porta de casa.
“A minha infância foi muito voltada para o brincar. Tive pai e mãe presentes, mas éramos uma família humilde. Meu pai sempre trouxe muito forte a relevância do trabalho e dizia que, para vencer na vida, era preciso esforço”, contou.
“Eu fui para a faculdade de Direito, mas meu pai não conseguia bancar tudo sozinho. Para eu não desistir do curso, comecei a vender bijuterias, óculos e bolsas. Eu era sacoleira e ajudava a pagar minha mensalidade”, relembrou.
Antes do Corujão, Daniela já utilizava as redes sociais para impulsionar as vendas, em um momento em que o Instagram ainda não era utilizado como ferramenta comercial de forma massiva.
“A informalidade traz muitas dificuldades, principalmente de acesso a crédito e expansão do negócio. Meu ciclo de vendas estava muito focado na faculdade, até que comecei a enxergar o digital como oportunidade”, disse.
O crescimento acelerado da rede fez Daniela ganhar projeção no setor supermercadista. Aos 30 anos, ela foi apontada como a mulher mais jovem a integrar a Associação Baiana de Supermercados (Abase). O Corujão chegou a ter mais de 500 colaboradores e consolidou-se como uma das marcas mais populares do varejo no interior da Bahia.
Segundo Daniela, a proximidade com o público e a valorização dos funcionários foram fundamentais para o crescimento da empresa. “A gente fazia um trabalho diferente na comunicação direta com o público e na aproximação com os clientes. Sempre valorizei muito o capital humano e a força dos colaboradores”, afirmou.
Mas o cenário começou a mudar em 2022. A desaceleração do varejo, aliada ao aumento da taxa Selic e à dificuldade de crédito, impactou diretamente o grupo.
“O mercado teve uma regressão muito forte em 2022. O pior fator foi a taxa de juros. Sofremos muito no varejo até 2023, quando chegou um ponto em que não conseguimos mais suportar”, contou.
O Corujão entrou em uma crise financeira marcada por alto endividamento. O principal problema, afirma Daniela, foi o crescimento acelerado dos juros sobre empréstimos e renegociações bancárias.
“A principal dívida foi relacionada aos juros. Tivemos um endividamento alto comparado ao valor inicialmente emprestado. Com a Selic elevada, os juros viraram juros sobre juros e a gente não conseguiu acompanhar”, afirmou.
A empresária revelou ainda que a rede tentou recorrer à recuperação judicial, mas não conseguiu manter o processo. “Recuperação judicial é muito cara e já não tínhamos mais caixa suficiente para conseguir conduzir tudo em tempo hábil”, disse.
O cenário enfrentado pelo Corujão também atingiu outras grandes empresas do varejo brasileiro nos últimos anos. Redes como Americanas, Dia Brasil, Casas Bahia e o Grupo Toky, controlador da Tok&Stok e Mobly, passaram por processos de recuperação judicial ou renegociação de dívidas em meio ao aumento dos juros, retração do consumo e dificuldade de acesso ao crédito.
Especialistas apontam que o varejo nacional sofreu forte impacto após o período de crescimento registrado durante a pandemia, especialmente empresas com operações expansivas e dependentes de financiamento.
Mesmo após a crise, Daniela decidiu permanecer no empreendedorismo. Atualmente, ela está à frente da Caipirovos, empresa voltada para o mercado de ovos e agricultura familiar, conectando pequenos produtores a confeiteiras e empreendedores no modelo B2B.
“Eu olhei para trás e pensei: ‘Se cheguei até aqui, posso pensar de outra forma’”, afirmou.
Além da atuação empresarial, Daniela também passou a ocupar espaço político. Em 2025, assumiu a presidência estadual do Avante na Bahia, com foco na ampliação da participação feminina em posições de liderança. “A proposta é trazer mais força feminina e incentivar mulheres a gerirem melhor suas carreiras”, declarou.
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